Duna Capítulo 1: Humanos e Animais



“É no início que se deve tomar, com máxima delicadeza, o cuidado de dar às coisas sua devida proporção. Disso toda irmã Bene Gesserit sabe. Portanto, para começar a estudar a vida de Muad’Dib, tome o cuidado de primeiro situá-lo em sua época: nascido no 57° ano do imperador padixá Shaddam IV. E tome o cuidado mais que especial de colocar Muad’Dib em seu devido lugar: o planeta Arrakis. Não se deixe enganar pelo fato de que ele nasceu em Caladan e ali viveu seus primeiros 15 anos. Arrakis, o planeta conhecido como Duna, será sempre o lugar dele.”

O artigo a seguir se baseia em minhas reflexões e nas de meus amigos Jonathan Thiago e Marcos Carvalho. CONTÉM SPOILER DO LIVRO UM. 

O primeiro capítulo de Duna nos apresenta muitas informações contextuais, ideológicas e narrativas. O contexto é futurista, um futuro que julgamos pertencer ao nosso mundo. Dentre as muitas informações que ajudam a confirmar isso encontramos uma “bíblia católica de Orange”, livro que o capítulo nos apresenta como de utilização comum no mundo de Duna; além disso, há referências a um passado longínquo, onde os humanos acabaram possibilitando que a inteligência artificial se desenvolvesse ao ponto de as máquinas se tornarem armas de destruição em massa, o que causou, após muitos anos de instabilidade e guerra, uma espécie de “reset” em nosso mundo. Mas nada em Duna acontece instantaneamente, isso fica muito claro. O processo de ascensão das máquinas, a guerra, a rebelião, o renascimento da humanidade e o estabelecimento de seus novos conceitos culturais aconteceram gradualmente. E tudo isso parece ter se desenvolvido em parte posteriormente, em parte em paralelo com a evolução da tecnologia e expansão científica do ser humano com a colonização espacial. 

Bom, estabelecido o contexto, o capítulo nos apresenta o que parece ser a personagem principal de nossa história: Paul Atreides. Ainda garoto, com 15 anos de idade, nascido em um planeta chamado Caladan e que está de partida para um planeta desértico chamado Arrakis, comumente conhecido como “Duna”. A partida de Paul envolve uma aura messiânica em torno do garoto, uma vez que sobre ele é (a primeira instância) depositada a responsabilidade de ser o líder, o representante de uma missão de suma importância para a raça humana. A tal missão em si ainda é um mistério pois Frank Herbert (o autor do livro) a deixa nesse capítulo sob a égide das interpretações dos leitores, em vez de fazer apressadas explicações claras. Bom, o livro corre em duas linhas do tempo. Uma acontece no futuro de Paul Atreides, descrita nos excertos do manual de Muad’Dib, escrito por uma tal de princesa Irulan e expostos no início de cada capítulo. A outra linha do tempo ocorre no presente de Paul, acompanhando a sua formação até se transformar em Muad’Dib. É aqui que mora um mistério. A princesa Irulan descreve Muad’Dib de uma forma que suas atitudes parecem ser, no mínimo, controversas. Assim surge o primeiro questionamento sobre a missão de Paul Atreides e sobre os motivos de ele ser considerado “o escolhido”, o messias. 

O garoto é, de fato, diferenciado. A criação de sua mãe, lady Jessica, e a posição de alto nascimento (os Atreides são uma família de duques) com certeza influenciam para a personalidade afiada e culta do garoto. Em diversas partes do capítulo Frank descreve Paul como uma pessoa anormal, acima da média. Em certos momentos parece até dar a entender que o garoto lê mentes ou tem outros dons psíquicos que até chamam a atenção de Gaius Helen Mohiam, a reverenda madre das Bene Gesserit, Proclamadora da Verdade do imperador padixá enviada a Caladan para estudar Atreides como o possível messias. Mas quem supostamente considera Paul Atreides o salvador da humanidade? o chamado Kwisatz Haderach?

As Bene Gesserit são uma classe de mulheres de grande influência social para a sociedade interplanetária do mundo de Duna. As irmãs Bene Gesserit são conselheiras de alto escalão governamental, separadas para se casarem com duques, e algumas delas possuem a habilidade de mergulhar suas mentes no passado da humanidade, sendo intituladas Proclamadoras da Verdade. É interessante analisar a relação entre a classe das Bene Gesserit e o “reset” que nosso mundo supostamente sofreu pois em nossa cultura real, a sociedade ocidental há uma grande marca primordial matriarcal, ou seja, as mulheres possuíam uma importância social muito maior do que apenas a relegada função de procriar. 

O marco cultural que deu fim ao matriarcado em favor da ascensão do patriarcado se deu no julgamento grego de Orestes, que havia matado Clitemnestra, sua mãe, em vingança pela morte do pai, Agamênon. O pai de Orestes, rei de esparta, havia sido assassinado por Clitemnestra, revoltada por Agamênon ter sacrificado a filha aos deuses para conseguir êxito na Guerra de Tróia. O julgamento de Orestes terminou com o voto de Athena, que desempatou a votação que se dividia entre a condenação e absolvição de Orestes. A decisão de Athena (que posteriormente ficou conhecida como o voto de minerva) quebrou a regra grega de que assassinato aos pais seria sempre punido com a morte. Dessa forma, culturalmente, a posição do homem no mundo foi elevada no mundo ocidental, nascendo assim o patriarcado. A reinicialização do mundo de Duna veio com uma espécie de resgate desse espírito matriarcal primordial e se ilustra na existência das Bene Gesserit. É notável como, ao longo de todo o capítulo, é identificável a relação entre o presente e o futuro da sociedade do novo mundo com a necessidade em enxergar e entender profundamente o passado. Paul Atreides surge então como uma exceção extraordinária a essa ordem feminina pois a ele é dada a função de ser, até certo ponto, um membro Proclamador da Verdade das Bene Gesserit, sendo aquele que enxerga o passado em todas as suas esferas, algo que nenhuma irmã da classe consegue. Seria Atreides uma espécie de Orestes? Seria ele o resgatador do patriarcado pleno assim como as Bene Gesserit resgataram o matriarcado? As inferências são muitas, não dá para dizer de cara que Atreides será o herói da história. 

Bom, também já falamos de aspectos narrativos trazidos no cap. 1, então podemos ir para as ideologias que o capítulo nos apresenta. Há um momento em que Paul Atreides nos mostra uma das características da criação de sua mãe: as lições mentecorporais. Se trata de uma série de exercícios de concentração que visa aprofundamento mental e conexão entre as partes física e psicológica que formam a extensão do corpo humano. Essa parte nos mostra que as pessoas do mundo de Duna são doutrinadas a expandir a significação do que é ser humano. Veja o que Paul diz enquanto está em sua sessão de concentração pessoal: 
“…a consciência animal não vai além do imediato nem penetra a ideia de que suas vítimas podem ser extintas, o animal destrói e não produz… …o ser humano exige uma rede de contextos para enxergar o seu universo…” 
Essa afirmação, que à primeiro momento parece literal, se torna retórica e ideológica contextualmente quando Paul Atreides é submetido ao teste da reverenda madre, que diz a ele que o teste tem como objetivo definir se o garoto é ou não “humano”. Mais uma vez a importância em entender o passado da humanidade parece se estabelecer como parâmetro fundamental para que compreender a manutenção e desenvolvimento da sociedade do mundo futurista de Duna, uma vez que nos perguntamos quem hoje em nosso mundo age de modo predatório e sem a devida preocupação com a extinção dos recursos naturais do mundo senão os seres humanos? “Entender os humanos do passado para agir diferente e salvar o futuro” parece ser uma lei no mundo de Paul Atreides. E neste mundo nós, humanos do passado, somos considerados animais, em vez de humanos. Até aí tudo certo, não? Pois é, tem um problema social que é singelamente introduzido nesse capítulo. Não só os humanos do passado são considerados animais, como também vários povos deste contexto futurista. E como ocorre uma doutrinação profunda em prol da “elevação do significado de ser humano”, não seguida por todos, aparentemente, o mundo de Duna pode ter passado por uma espécie de “divisão de castas” de humanos superiores e inferiores, sendo que Paul Atreides pode acabar se tornando a persona central nessa divisão. 

Ficamos completamente empolgados (e também um pouco assustados) com as possibilidades que isso pode gerar na narrativa desse livro. Se há a possiblidade de Paul acabar se tornando um tirano supremacista, em contrapartida há outra possibilidade: Atreides pode acabar se transformando em um revolucionário que acaba lutando contra o sistema de castas estabelecido, gerando uma nova estabilidade belicosa no senso comum da sociedade interplanetária desse mundo futurista. Por fim, mas não menos importante: o teste do Gom Jabbar. Frank Herbert esbanja habilidade de descrição sensorial ao ilustrar com palavras a dor que Paul Atreides sofre sob a avaliação da reverenda madre. E não é só dor. As características da dor, que se divide entre física e mental, bem como a resposta de Atreides à essa dor (como explicada pela reverenda madre), formam o ponto alto da personagem no capítulo 1 de Duna. Ainda estamos no começo, tem muita coisa para acontecer ainda. 

Contudo, o capítulo 1 de Duna é um capítulo sensacional.

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